Não ha prazer que se compare ao pavor. Se pudéssemos nos sentar, invisíveis, entre duas pessoas em qualquer trem, sala de espera ou escritório, a conversa entreouvida giraria invariavelmente em torno desse assunto. Certamente a discussão pareceria referir-se a alguma coisa inteiramente diferente; a situação do país, uma conversa corriqueira sobre mortes nas estradas, o preço crescente dos tratamentos dentários; mas tire as metáforas, as observações indiretas e lá, oculto no coração do discurso, está o pavor. Pavor de ser pobre, pavor de morrer acidentalmente de forma súbita, pavor de não ter dentes e de não ser considerado belo e atraente, pavor de viver nesse mundo que pode ser tão cruel e frio. Enquanto a natureza de Deus e a possibilidade da vida eterna passam sem discussão, remoemos com satisfação o sofrimento, minuciosamente. A síndrome não reconhece limites; o mesmo ritual se repete, seja na sauna ou no seminário. Com a invitalidade de uma língua que repetidas vezes inspeciona um dente dolorido, pisamos e repisamos e repisamos nossos medos, sentando-se para falar sobre eles com a ansiá de um homem faminto à frente de um prato quente e transbordante de comida.
Não ha prazer que se compare ao pavor. Desde que não seja o nosso